
A notícia da cura de um bebê americano infectado pelo vírus HIV a partir da terapia antirretroviral potente logo após o seu nascimento repercutiu em todo o mundo. No Brasil, em entrevista ao jornal O Globo, alguns especialistas disseram se tratar de um marco que pode revolucionar o protocolo de tratamento de recém-nascidos em todo o mundo. De acordo com a reportagem publicada na terça (5/3), uma vez que o feito seja replicado e sua eficácia comprovada, seria uma questão de tempo para adotar o procedimento. Nesse contexto, o Brasil teria condições de oferecer a terapia rapidamente.
A diretora do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (Ipec/Fiocruz), Valdiléa Veloso, disse que no Brasil já tem recursos disponíveis. “Na hora em que se comprovar que a terapia é realmente segura, vai ser muito fácil implementar isso, pelo menos no Brasil”, frisou. A criança americana foi tratada com uma combinação agressiva de ARVs cerca de 30 horas após o seu nascimento, o que normalmente não é feito. Os medicamentos utilizados são bem conhecidos em todo o mundo, apenas a forma de administração é que foi diferente.
Ano passado, o Brasil registrou 482 casos de crianças infectadas pelo vírus HIV. Em todo o mundo, foram 330 mil crianças com o HIV, a maior parte na África. No Brasil, bebês nascidos de mães soropositivas que não tiveram tratamento antirretroviral durante a gravidez, caso da americana, recebem uma combinação de duas drogas Zidovudina (AZT) e Nevirapina ministradas em volumes profiláticos, isto é, preventivamente. No caso do estudo americano, foram usados AZT Nevirapina e 3TC (Lamivudina), em quantidades um pouco mais altas, normalmente indicadas já para o tratamento. Posteriormente, quando a infecção foi confirmada por exames, o bebê passou a receber AZT, 3TC e lopinavir/ritonavir.
Produção e disponibilidade - Caso seja necessário, Farmanguinhos já produz esses medicamentos para o Ministério da Saúde, em sua política de acesso universal aos antirretrovirais. O Instituto desenvolveu também um antirretroviral infantil em Dose Fixa Combinada, que reúne três princípios ativos em um único comprimido. Os fármacos deste medicamento inovador - Lamivudina, Zidovudina e Nevirapina - são os mesmos utilizados no tratamento da criança americana.
A farmacêutica Marli Melo da Silva, do Departamento de Pesquisas Clínicas da unidade, e que participa da coordenação do estudo do antirretroviral infantil de Farmanguinhos, ressaltou que o caso do bebê americano pode ser uma esperança, mas, assim como Valdiléa Veloso, prefere não se precipitar. “A medicina e a pesquisa clínica são baseadas em evidências. Um único caso é pouco. Os estudos deverão ser confirmados”, disse.
Entenda melhor o caso – O HIV circula pela corrente sanguínea, mas também se aloja no interior das células, nos chamados santuários, onde permanece de forma latente. A terapia antirretroviral hoje oferecida impede a replicação no sangue, mas, quando é interrompida, os vírus que se encontram latentes voltam a se replicar. A hipótese levantada pelas especialistas americanas é de que como a droga foi ministrada muito precocemente e de forma agressiva, o medicamento teria acabado com o HIV antes que ele chegasse a se “esconder” nos santuários ou reservatórios. “Eu achei que o bebê tinha um risco acima do normal de ter sido infectado e, por isso, tentei fazer o melhor possível”, justificou a pediatra Hanna Gay, que atendeu a criança.
Por acaso – A constatação de que o bebê havia sido curado foi feita por acaso. A criança ficou em tratamento por 18 meses, mas, então, deixou de freqüentar o centro. Só retornou cinco meses depois, quando foi testada e apresentou resultado negativo para o HIV. Atualmente a criança está com mais de dois anos e continua apresentando resultado negativo, embora ainda esteja em observação.
“Isso aconteceu por um acaso porque nenhum médico teria suspendido o tratamento dela”, explicou Valdiléa Veloso. “Então temos agora de voltar aos nossos estudos e fazer novos testes para buscar por situações como essas. E observar para ver se esse vírus está escondido em algum lugar e se, por alguma razão, pode voltar a se replicar”, enfatizou.
O vice-diretor-geral do Programa de Aids das Nações Unidas (Unaids), o brasileiro Luiz Loures, está otimista em relação aos estudos. “Trata-se de uma esperança bem realista porque é possível reproduzir, mesmo em países pobres. Acreditamos que essa forma de transmissão (de mãe para filho) seja a que estamos mais próximos de zerar, até 2015.
Quando as grávidas soropositivas são tratadas com antirretrovirais adequadamente, o bebê nasce por cesárea e não recebe leite materno, as chances de infecção caem para menos de 1%. No entanto, muitas mulheres não sabem que são contaminadas. Por isso, o número de infecções ainda é alto, sobretudo onde o pré-natal é mais precário.
“Se conseguirmos repetir a experiência americana de forma controlada, vamos fechar o ciclo de transmissão de mãe para filho”, avaliou Loures. Ele disse que uma das maiores dificuldades hoje é o caso da mãe infectada não diagnosticada, ou que não dá sequência ao tratamento. “Então esse resultado nos dá grande esperança. Não só nesse sentido, mas também na compreensão da cura da doença de forma geral”.
Para Loures, o feito das americanas pode ser o primeiro passo para uma geração livre da Aids. “Se conseguirmos replicar o resultado, é o começo de toda uma geração nascida sem o vírus”, assinalou.
Qui, 07 de Março de 2013 11:15 Alexandre Matos
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